03 maio 2005

III História da Avozinha - É dos genes, é pois.


na infância da vida tinha uma família. inteira, inteirinha como toda a gente, com mãe e irmã com pai tios e avós.

na infância tinha e na adolescência e na juventude e até há uns anos atrás ainda a tinha , mais pequena já, mas família ainda.

quando era menina, na casa da avó, alentejo ardente, nunca se falava de uma tia velha, tia-avó, diziam vizinhas à volta da rua branquinha, caiada em baixo de azul.

- avó. vou ali à rua brincar.

- onde? não vás longe. são horas de almoço ou quase. comeste tão pouco. o avô vai chegar...

já nem a ouvia calcanhares batendo nas saias compridas. os sapatos brancos mal tocavam a terra batida da rua.

- é ali ao fundo, viras à direita, a 3ª casa, tem a porta aberta. vai ficar feliz. dizem que é louca. vê espíritos e fala com eles até... não tens medo, lena?

correu mais ainda. chegou ofegante. bateu de mansinho com os nós dos dedos.

- entra.

entrou.

- olá tia.

tinha a mesa posta para três pessoas.


A mad woman - Eugène DELACROIX

- és a madalena, não és? que bonita! esperava por ti.

estranhou. estranhou muito mas não disse mais que, depois de beijá-la:

- espera alguém para o almoço? eu volto outro dia...

- a mesa? não. é só para nós três.

sentaram-se as duas. a louca simpática tia, contou como lhe morrera uma filha jovem ainda e que ela esperava para as refeições. previra-lhe a morte. tudo o que de mal advinha aos seus previa ela sempre.

- ponho sempre um prato a contar com ela. nunca falta, nunca. está quase na hora de ela chegar, esperas um pouquinho?

-
a lena não pode. desculpe-me mana, mas tenho a comida dela a esfriar.

a avó fora-lhe, ansiosa, no encalço ao saber onde tinha ido.

da tia-avó louca guardou o amor à filha que lhe vira nos olhos bondosos. da prima não soube se aparecia ou não.

mas se a mãe a via, que importava o pouco que a crença dos outros dava à verdade que ela tinha, exposta na alma e na mesa de toalha branca e prato florido de espera festiva?

essa tia-avó soube que morreu.



anda por aí muita gente louca sem o assumir. disso sabe agora.

pobre o que não sabe ver a própria história. contrói sua casa em terra arenosa. mais tarde ou mais cedo acaba a ruir.

7 passos

Blogger OrCa andou...

Foi boa esta sensação de passear pela estrada irreal de pés descalços... Já quase me esquecera do calor da terra, do pico do cardo... Gostei de passar e hei-de voltar.

terça mai 03, 01:02:00 da tarde  
Blogger paperl life andou...

:)

terça mai 03, 01:09:00 da tarde  
Blogger lique andou...

Tens razão, Madalena, pobre é o que não sabe ver a própria história. Gostei de te ler. Beijinhos

terça mai 03, 02:48:00 da tarde  
Blogger paper life andou...

... e nem ouvese lha querem contar...

Tão triste, Lique, quanto grave.

:(

Bjs

terça mai 03, 05:39:00 da tarde  
Blogger wind andou...

Gostei deta história:) e tens toda a razão:) beijos

terça mai 03, 10:06:00 da tarde  
Blogger ognid andou...

a nossa história tem as nossas fundações. portanto se não as soubermos respeitar...beijos M.

terça mai 03, 11:53:00 da tarde  
Blogger BlueShell andou...

Fez-me lembrar tanta coisa, este texto...

Jinho Enorme!
BShell

quarta mai 04, 01:18:00 da manhã  

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