23 maio 2005

I - dessa vez a mudança de casa foi a última coisa a acontecer.

a irmã foi primeiro para setúbal. o liceu.

ela, por ser fransina e medrosa (disseram) foi inscrita na escola comerial do barreiro. que ideia mais triste! mas se calhar foi falta de dinheiro para o transporte de duas...

fosse lá o que fosse ai estava ela a estudar o que nunca tinha querido.

matemática? nunca iria para um curso que dependesse dela.

o professor da matéria mal amada era vejam lá, o director do ciclo. imponente e cheio do seu poder. bonito, por sinal.

como a sorte nunca lhe foi madrinha escolheram-no para explicador da irmã.

- levas o envelope ao dr. com o pagamento?

- porque é que a mana não levou?

- o pai ainda não tinha recebido...

- ela que leve na próxima aula. não gosto dele.

- levas pois. há-de pensar que não queremos pagar.

os pobres preocupam-se com as dívidas, os ricos é que não.

esperava que todas saíssem. ficava até já não ver ninguém. não queria que pensassem que tinha cunha ou o que fosse de semelhante. não lhe agradava mesmo nada aquilo!


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- s´tor, o meu pai pediu que lhe entregasse isto.

- que é?

- não sei.

ele abriu e não chegou a tirar o conteúdo.

- diz ao teu pai que não precisava ter tanta pressa. a tua irmã ...

- já passava do tempo.

olhou-a pela primeira vez.

- parabéns. tens uns olhos azuis muito bonitos, sabias?

- é. sabia. não é mérito meu. nisso e na voz saio ao meu pai.

posso ir?

- obrigado. não precisas ter medo de mim. tenho fama de mau mas, só tens de estudar...

saía disparada. corada. de mãos húmidas.

àquela aula não podia ela faltar. ele iria contar à irmã e a irmã ao pai. a ele, ela não queria dar desgostos demais.

escolheram outra. ela e o grupo do mata que jogava na perfeição com um ringue.

- não podemos faltar todas ao mesmo tempo...

- a moral, podemos.

- ela dá por isso.

- não dá. de cada vez falta metade da aula. quando a beata fizer a chamada, responde uma pela outra. depois troca-se.

havia religião e moral 2 vezes por semana. era de bradar aos céus por misericórdia. mas a professora gostava de a ouvir dizer poemas e das perguntas que ela fazia. entretinham o tempo.

- faltamos amanhã. só duas filas. as outras que tratem de encher os espaços para não dar nas vistas.

deve ser por tanto ter faltado que tem uma noção de moral um bocado diferente da da irmã e de outras gentes desses tempos.

deve ser...


4 passos

Blogger José Alexandre Ramos andou...

retrato daquele portugal... a moral hoje é sem dúvida outra, mas prima da anterior...

segunda mai 23, 01:47:00 da tarde  
Blogger paperl life andou...

prima?

neta, tia, sobrinha cunhada, eu sei lá.

Desde que se mascare de boa intenção, vale tudo. Sempre valeu. Só não se contava em público.

segunda mai 23, 01:51:00 da tarde  
Blogger wind andou...

Como gosto destas histórias reais:) beijos

segunda mai 23, 02:51:00 da tarde  
Blogger paper life andou...

Wind, esta está inacabada.

:) Bjinho

segunda mai 23, 05:31:00 da tarde  

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