13 maio 2005

não lhe contavam nada nesse tempo.


Moura - Thanks to

moura era ainda uma vila. caiada. branca toda. às vezes com uma barra de azul a debroar as casas.

devia ser pela páscoa. devia. era por essa altura que visitavam mais a família e iam todos. havia festas e a segunda feira festiva e pagã, do almoço à beira do ardila.

tinha uma irmã. não parece por pouco falar dela, mas tinha. era pouco mais velha e não brincava. talvez por isso a esqueça quando narro.

dessa vez a irmã, ela e uma prima mais velha estavam sózinhas em casa. deviam ter ido às compras as mulheres, a preparar a festa com borrego, para comer entre mergulhos gargalhadas e sol.

- que é que vocês estão a ver?

as outras duas apertaram as cabeças. murmuraram mais baixo ainda.

- nada. não é para a tua idade.

palavra mágica essa, a da idade. esgueirou-se entre as duas. a magreza para alguma coisa havia de servir. antes o não tivesse feito. antes não...

- que é isso?

- está calada! não contes a ninguém ou ainda levas!

era um frasco. não vazio. tinha alcool, devia ser... e lá dentro uma forma pequenina.

- isso é gente! o que é isso? diz lá!

a ansiedade, tanta ansiedade.

- está morto!

- não, está vivo - ironizaram.



depois foram esconder o segredo da tia onde ele antes estivera.

devia ser páscoa, mas não se lembra de mais nada senão de sair para a rua e de correr ladeira abaixo a soluçar.

ninguém lhe viu as lágrimas que corriam tanto como ela.

hoje sabe das hipocrisias de outras tias.

mas não. não vai, não consegue, votar.

não condena ou absolve, simplesmente não mata. tentará até à sua própria morte, não matar.


thanks to

7 passos

Blogger paperl life andou...

Eu sei que é controverso, mas promessa é dívida. eu ontem tinha prometido explicar. não foi só este primeiro contacto com o aborto que me marcou, foi o primeiro. eu teria 10 anos, pouco mais. Os outros... bem os outros não são para este espaço. nem este eu sei bem se será.

desculpem.

não. eu sou assim. não posso desculpar-me de ser.

obrigada a quem me lê.

:)

sexta mai 13, 10:31:00 da manhã  
Blogger wind andou...

E explicaste muito bem. Beijos

sexta mai 13, 11:27:00 da manhã  
Blogger batista filho andou...

És corajosa ao abordar tal tema. Mais ainda ao expores a tua opinião. Que Deus continue a intuir-te.

sexta mai 13, 12:27:00 da tarde  
Blogger paperl life andou...

Não é preciso coragem para dizer a verdade do que se sente.

:)

abraço.

Bjs, Wind.

:)

sexta mai 13, 12:39:00 da tarde  
Blogger André Ferreira andou...

Moura? Então andas pela minha terra?

Que história bizarra! Que contacto terrivel para uma criança( para um adulto imagino que também não seja nada fácil). E que macabro guardar a criatura num frasco!

Beijinhos

domingo mai 15, 12:31:00 da tarde  
Blogger paperl life andou...

André, és de moura?

Coisa boa!

Terra que eu amo mesmo e de onde vem parte destes farrapoos de memória. O meu pai e avós nasceram lá.

Eu, não mas tenho 6 costados alentejanos. Pelo menos...

:) Bjs.

segunda mai 16, 09:06:00 da manhã  
Blogger André Ferreira andou...

É! Sou de Moura. E agora aqui vivo(no campo, afastado da povoação!) há uns 8 meses, depois de quase 10 anos a viver fora daqui! Mas aqui é que tenho uma boa qualidade de vida :)

Beijos

segunda mai 16, 12:38:00 da tarde  

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