de pés descalços, mudamos o rumo

minha casa de campo. ;)
FÉRIAS!
CIAO.
É um grande privilégio ter vivido uma vida difícil. (Indira Gandhi)
e assim foi.
se ficaram danados?
ora, tá-se vendo que sim. tinham perdido 48 horas, que eram oiro, os cabrões!"
- pronto. agora estou certo. não gravei mais nada.
tu que tens? tens lágrimas. mas isto já lá vai muito tempo...
- eu sei. eu sei.
- então?
- nada. e o velho? voltou a vê-lo?
- não. foi aí que sumiu como te disse.
- quem seria? quem podia saber e estar ainda vivo?
- mas de que falas tu? agora sou eu que não entendo...
- desculpe. é que eu conheço essa história que o velho lhe contou. o genro era o meu pai e quem o salvou, o ti agostinho, era meu avô. entende?
Eyes of the Sky by Nance County, Nebraska
- quero eu lá saber dos impossíveis! estamos os dois a vê-la... investigue depois e olhe agora. onde estará poisada? parece estar só reflectida no vidro da janela. como se nos espiasse directamente do... céu.
- abre os vidros e ficas a saber.
- não. iria espantá-la se está perto. pela nitidez perto está, mas aonde?
- talvez tenha fugido...
- não parece. estaria assustada e está serena. como quem espera de nós alguma coisa.
- pronto, lá estás tu a sonhar...
- engraçado, a águia parece ter os olhos verdes. um verde acastanhado, como o meu.
- vais ou não querer ouvir o velho?
- agora ainda mais. não vê que é um sinal?
- sinal de quê? responde.
mas foi o silêncio que lhe respondeu.
in
- talvez tanto como haver vida, mais vida que aquela que se vê.
- que disparates dizes!
- contou-me tudo o que ele lhe disse sobre o tio agostinho?
- não. contou-me outras histórias. se calhar inventadas. por isso as não referi.
- eram só dele as histórias? não haveria pelo meio delas um genro, por exemplo?
- agora que perguntas... havia sim. mas como sabes? como podes saber?!
- não sei. quero saber, é que o tom desse velho...
deixe lá o que eu penso. limite-se a escrever o que quiser. mas a mim vai ter de contar mais. de contar tudo!
eu preciso saber!
- mais tarde, acalma-te. agora não ou a comida esfria como diria o velho alentejano. anda, o almoço está na mesa. depois falamos, com mais calma.
mas que agitada estás!
agruras da minha terra
que tão maltratada está
já ninguém a reconhece
pelos bons frutos que dá .
quem não ama onde nasceu
nem o ventre de onde veio,
é alguém que se perdeu
e vive agora no meio
de uma enorme confusão
do onde se deita o futuro
se é em macio colchão
ou desnivelado e duro.
minha terra minha gente
peguem no vosso bordão,
que o caminho é sempre em frente
e sem os olhos no chão.
Castelo de Arraiolos Foto Ivo Gomes
se m'animo cantando isto? olhe amigo, nem sei bem. mas é verdade o que canto e isso é o mais que levo de quando o estou a cantar. vivi muito. sofri muito. estes olhos já cansados, digo-lhe, viram demais.
mas quando vos vejo derreados á primeira aflição, dá-me uma raiva tã forte de os ver baços, enfezados, em pura lamentação!
a vida faz-se com luta. com trigo se faz o pão.
vou-me indo. esta disputa já é vossa, minha não.
by Alexandre Leroux
Moura - foto de Pedro Mendes.
o ti agostinho era homem de antes quebrar que torcer, toda a gente sabia.
não que ele se gabasse. nem pensar! cara fechada e sem sorrisos. poucas palavras que quem muito fala muita asneira diz.
os feitos é que falavam por ele.
tinha força de toiro , salvo seja, dizia-se na vila. na tropa, na guerra onde estivera a ajudar espanhois, houve um sargento que desengraçou com ele e o trancou num barracão, de arma e chicote em punho. teve medo? qual quê! avançou para o sargento arrancou-lhe o chicote e ainda lhe partiu a arma no joelho. e olhem que era daquelas cerradas. duras que só tentando.
o outro, ao que parece, meteu o rabinho entre as pernas e desistiu de conselho de guerra ou o que fosse. mandou-o para casa na primeira leva. tinha medo de algum tiro que lhe viesse de acidente.
não dele, que não era cobarde, mas de algum amigo que se tivesse apercebido da trama do maldito militar.
bem, apresentado que está em poucas e mal alinhavadas palavras, que melhor não sei, o tio agostinho, alentejano dos quatro costados, a história, coisa pouca, terá de ficar para amanhã. que a minha senhora tem a janta pronta e nã na quero fazer esperar, que esfria.
até. santas.
A fonte - Jean-Auguste-Dominique
seca.
aconteceu.
Obrigada.
mas também lhe cabia ler o resultado das cartas que enviava. escrevia e lia a vida alheia para que a comunicação nunca parasse.
não era de estranhar que tivesse um pombal cheio de pombos-correio que soltava à tardinha e via voar em grandes círculos, até o som do milho os fazer regressar.
- o pai é o pombo correio desta gente.
deu a filha em pensar.
o alentejo ardente não era só poesia e cor e o ardila, rio de sons de harmonia.
o alentejo pode ser e é quase deserto, perto à raia de espanha onde o longe e o perto não se distinguem já.
dessa vez insistiram ainda mais, que não fosse.
- o ano foi tão mau. e o tio está a trabalho num monte com a tia, nos quintos dos infernos. não aguentas lá.
que sim, que aguentava.
- gosto do tio manel que sabe tanta coisa.
- são coisas inventadas.
a mãe, real crueza. se nunca fora doce...
- mas não faz mal, eu gosto de tudo o que ele conta.
- o raio da rapariga e a sua teimosia!
foi por tanto teimar que avisaram a tia.
o tempo era de seca. as ovelhas inventavam o pasto que comiam. comiam o restolho. toda a palha que havia era comprada já, ou o gado morria.
mas ela não pensava nisso. ela corria. com o primo rodrigo seu amigo de sempre.
- senta-te aqui à sombra, filha, que está uma torreira de queimar um qualquer!
ela já tinha a pele de cor aciganada, o sol não a tisnava porque mais não podia.
- vou só ali acima espreitar o que há para lá do outeiro, tia.
e enquanto falava corria tanto que a resposta já nem ouvir podia.
chegada ao outeiro olhou á volta. que planura daquele montinho cinza e vermelho de terra a vista alcançava!
assim ficou um pouco. presa de encantamento. tão largo o hozizonte!
subitamente viu, mesmo por baixo dela escondido no pequenino monte, um buraco redondo com olhos a espreitar. desceu acocorou-se e ficou a olhar.
não ficou muito tempo. quem sabe a mãe andasse ali por perto. bicho manso não era, isso tinha por certo.
na volta a casa não contou a ninguém senão ao primo quando ele regressou de ajudar o pai. e à hora da janta, trocavam olhares cúmplices que quem estivesse atento podia bem notar.
noite de meia lua. luz, a do candeeiro e a da lareira acesa para a água do café. os cabos eléctricos não chegavam tão longe. quem vivesse ali tinha por vocação ou não, pura vida de monje.
da noite veio um uivo de arrepiar. depois, espaçado, outro. de repente parecia que era a planície que estava a uivar.
- que é tio? - perguntou com medo.
photo by John H. Gerard;Canis Lupus, howling
- são lobos, filha. vêm ao cheiro dos borregos. há várias noites que andam a rondar.
na porta vozes de homens. o tio pegou um longo longo pau.
- não vai matar os lobos pois não? eles comem-no antes, tio?
- não filha, é assim: em um abrindo a boca direito ao tio enfio-lhe o vara-pau pela bocarra adentro. depois enfio o braço apanho-lhe o rabo e viro-o ao contrário.
seria talvez falso como a mãe tinha dito. mas de momento acalmara-lhe o coração aflito.
adormeceu antes do grupo que partiu com o tio voltasse a casa. meio da noite acordou com uma cantoria. eram os homens, que à fresca, descansavam tendo já um graozinho na asa. e lá ralhava a tia...
nem ela nem o primo alguma vez deram o dito por não dito. nenhum deles contou em casa haver ali pertinho, a toca do lobito.
meu rico Santo Antoninho
que és da minha devoção
ensinha-lhe o caminho
que vai ao meu coração.
tenho tanto para entregar
quem é que irá receber
este amor que eu quero dar
a quem provar merecer?
meus amigos fiquem bem
tenham esse humor em alta
eu só aqui estou também
por sentir a vossa falta.
calor. tanto calor! porque aumentara tanto a temperatura? passara a pior hora...
- que bom ter vindo! venha sentar-se ali. tenho a toalha à sombra.
- não foi fácil. ninguém queria ou deixou e a júlia não podia... é uma mentira o que estou a fazer.
- é?
- não! é a única verdade.
- sim.
olharam-se. bastava. sempre bastou quando mais não podiam.
- olhe, golfinhos!
- estão cá todos os anos. vê aquele homem que se atirou à água?
- vai ter com eles?
-sim.
- um golfinho ficou para trás. brinca com ele.
- dizem que o reconhece...
o calor descera com a frescura dos golfinhos mas por pouco tempo. como as ventoínhas, o fresco só dura enquanto passam, a girar.
olhavam-se de novo.
- quer ler a sina, menina?
uma cigana velha, muito velha. de preto. parecia um corvo gigante a ensombrar o dia.
- não!
quase gritou. mas não é fácil fazer ouvir um não a uma cigana. ainda por cima velha.
pegou-lhe a mão direita.
- não, já disse!
- esta é de graça. se quiser saber tudo é que tem de pagar.
o homem sorria. não levou a sério. estava calmo, feliz.
- vai casar com um homem mais velho... vejo muitas complicações na sua vida... 3 filhos vai ter!
quer saber mais?
-não, já disse!
- deixe a menina em paz.
o homem estendeu-lhe uma moeda.
- o que eu disse vai acontecer.
tremia. porquê? gostava de ciganos.
- pronto, ela já foi.
- é, viu-nos juntos e fez cálculos errados: casou-nos.
calaram-se. tristes.
- tenho de ir. já não moro aqui...
- eu sei. eu levo-a ao barco para lisboa.
que feliz se sentiu!
já no barco viu-o a acenar e a gritar como um louco:
- AFRODITE!
aconteceu, num dia de muito calor...
que bom, a música escorre!
como cacto com espinhos.
espantalho de desertos.
e as aves? faltam-me as aves!
in
mas a vida nem sempre é aquilo que nos parece, aprendeu para nunca mais esquecer, no dia que se seguiu.
estava ela junto à escola quando o mesmo homem viu com a mesma cantilena da família bem distante. pequena ou não, a menina avançou de encontro a ele com a força de um gigante.
- ainda se lembra de mim?
nada na vida é eterno. e nem a dor é infinda.
agora quando lhe pedem pensa para seu governo:
- num deserto de mentira, há tanta verdade ainda...
nunca perdeu a vontade de trepar, escalar o que houvesse de obstáculo terroso pelo caminho. os joelhos esfolados mantiveram-se até tarde no tempo. quando podia deixava-se escorregar na descida.
nas descidas mais íngremes aprendeu a não olhar para baixo. serviu-lhe mais tarde para a vida. olhar para o fundo pode dar vertigem ou atracção do abismo. e isso ela não quer sentir.
mas a mais difícil escalada foi o colo do avô.
estranham? ela também estranhou, mas só de início. já em muito menina lhe diziam as primas:
- deixa o avô. ele não tem paciência...
- quem és tu? ah, és a filha da bia! és magrinha. parece que não bebes caldo quente.
tirava a mão de cima dos cabelos loiros da neta e voltava ao que fazia antes dessa atenção.
ela não se habituara muito a colos nem gostava que a agarrassem. por dentro agradecia. mas à noite, ouvia o pai e o avô falarem de histórias que a encantavam e mal compreendia.
o avô e o pai, juntos, riam.
era um rochedo que um dia ela tinha de escalar. mais até por ser um desafio.
o avô estivera na guerra de espanha. diziam que depois disso se tornara duro.
de uma vez, sem mais aquelas, ao seu jeito, estando o avô sentado numa cadeira alta, sozinho frente ao fogo, ela passou-lhe uma perna esguia por cima do joelho e sentou-se.
desta vez foi a neta a por-lhe uma mão nos cabelos.
- avô conte aquelas histórias da guerra que contava ao meu pai.
- quais histórias? eu sei lá histórias!
- conte as verdadeiras. as que eu gosto.
- já não me lembro...
- lembra pois!
- o raio da rapariga do que se havia de lembrar!
só se for daquela vez em que à noite assaltámos a trincheira dos outros a roubar pão e chouriços ao inimigo que a fominha era de rapar...
- sim avô, conte conte!
tinha escalado o último rochedo.
quando as mulheres voltaram da rua espantaram-se com o quadro inédito na casa, o avô com uma neta espigadota ao colo contando entusiasmado, histórias que um dia ela tentará contar.
- agora salta lá para o chão que já estás grande para colos!
- sim avô.